Notícias

Voltar

 

Notícia publicada no dia: 16/03/2016

Empresas buscam exportar mesmo com oscilações no câmbio

 

 

 

Ao sabor das mudanças constantes no cenário político, as oscilações bruscas no câmbio não chegam a mudar os planos dos empresários brasileiros que se voltaram para o mercado externo como única alternativa à profunda recessão enfrentada pelo país. “As empresas estão desesperadas para exportar”, atesta o consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento. Na sua avaliação, até o patamar de R$ 3,60, a cotação do dólar ainda permite um desempenho competitivo dos exportadores brasileiros.  

Na semana passada, quando os operadores financeiros apostaram com mais intensidade no impeachment da presidente Dilma Rousseff, o dólar bateu em R$ 3,590, o menor valor desde agosto do ano passado. Hoje, diante da iminência da participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro escalão do governo federal, a cotação subiu 3,05% e fechou em R$ 3,762, a maior variação percentual desde outubro do ano passado. São os extremos de um mercado especialmente sensível ao risco político. 

A gangorra em que se transformou o câmbio certamente dificulta o planejamento e a operação dos exportadores. Mas as empresas brasileiras têm convivido com essa realidade pela constatação de que não há outra saída para contornar a profunda queda no consumo interno, que ameaça a própria sobrevivência dessas organizações. “É a única saída”, enfatiza Barral. Além disso, a flutuação mais forte do câmbio nesse momento em que se agrava ainda mais a crise política do país está longe de fazer regredir a cotação do dólar ao nível inferior a R$ 2,00, como aconteceu no período de 2007 a 2012. 
 
Às voltas com inúmeras solicitações de clientes que passaram a demandar serviços de planejamento para exportação, o que inclui complexas questões logísticas e legais, o sócio da Barral MJorge Consultores insiste que não basta contar com cotação favorável do dólar para materializar as transações no comércio exterior. As dificuldades de financiamento à atividade são barreiras difíceis de serem transpostas pelas empresas brasileiras, que enfrentam competidores que usufruem de condições muito mais favoráveis. 

Na conversa que teve com o blog, ele citou o caso de uma empresa de celulose que disputava a venda de produtos de maior valor agregado para um cliente de grande porte no exterior e esbarrou justamente na ausência de financiamento para a transação. Enquanto isso, o competidor estrangeiro ofereceu ao comprador um prazo de pagamento de 150 dias, sem a cobrança de juros, o que praticamente selou a derrota da proposta do fornecedor brasileiro. Casos assim se multiplicam nas experiências vividas por Barral. 

Outro exemplo significativo envolveu a negociação de um contrato de exportação para os Estados Unidos, que representaria para uma empresa brasileira um salto de 25% para 70% na utilização de sua capacidade instalada. Sem capital de giro suficiente, os exportadores não conseguiram ainda uma saída para bancar a produção demandada pelo cliente, já que só receberão os recursos depois de entregue a mercadoria. É por isso que Barral define as empresas brasileiras como competitivas da “porta para dentro”. 

A partir desse limiar, resta a realidade da infraestrutura precária, da burocracia e da escassez de financiamento. Nesse sentido, ele lamentou mais uma vez a decisão do governo de reduzir os recursos disponíveis para o Reintegra, o programa que garante aos exportadores a compensação de parte dos impostos recolhidos ao longo da cadeia de produção. No ano passado, no âmbito das medidas de ajuste fiscal, a parcela de compensação pelos impostos acumulados foi reduzida de 3% para 0,1%. “A falta do incentivo fiscal é um grande problema”, aponta o consultor. 

Mesmo assim, os exportadores estão plantando as sementes para ampliar sua presença no mercado internacional. As providências têm sido tomadas para a certificação de produtos e a negociação de estruturas de distribuição no exterior, entre outras iniciativas necessárias para garantir uma participação mais intensa nesses mercados. A expectativa de Barral é que os resultados mais concretos desses esforços sejam colhidos em 2017. Os efeitos da crise política não devem interferir nessas previsões, já que afetam apenas indiretamente o setor, segundo ele. 

Até agora, os resultados da balança comercial em 2015 e neste início de ano têm se apoiado muito mais na contenção das importações do que na expansão das exportações, embora se observem sinais de recuperação até mesmo nas vendas de produtos manufaturados. O superávit de US$ 19,685 bilhões registrado na balança comercial do ano passado refletiu o declínio das exportações de commodities e o impacto da aguda desvalorização de 50% da moeda brasileira. O desafio agora é ampliar as exportações para compensar a dramática queda na utilização da capacidade instalada das empresas brasileiras pela depressão do mercado interno.